Falar sobre Aimar Labaki não é uma tarefa fácil, até mesmo para quem acompanha seu trabalho de perto. “Labaki é talentoso, escreve para TV e teatro, dirige e trabalha muito”, afirma o autor e diretor Fauzi Arap, amigo e “guru” de longa data. “Classificá-lo, prendê-lo a um adjetivo diminuiria a amplitude artística que enxergo nele”.
Paulistano de 47 anos, Labaki começou a fazer um curso para atores aos 18 anos, quando ingressou na faculdade de Direito. Trabalhou com publicidade, cinema e como assistente de direção e iluminador teatral. De 86 a 90 atuou como crítico. Também escreve ensaios, faz palestras, curadoria e consultoria de festivais.
Estreou como dramaturgo e diretor em 1992, com “Tudo de Novo no Front”. O primeiro diretor a encenar sua obra foi Gianni Ratto, que em 1998 levou aos palcos “Vermouth”. De lá para cá, já foram dez textos montados por outros artistas e cinco obras dirigidas por ele. Além de “MSTesão”, também assina a direção de “Os Passageiros”, de Flávio Goldman, com estréia prevista para este semestre.
Indicado ao Prêmio Shell no Rio na categoria de melhor autor (por “Campo de Provas”), o dramaturgo Aimar Labaki estréia hoje o espetáculo “MSTesão”, escrito e dirigido por ele, no Sesc Consolação, em São Paulo. A peça, sobre um jovem (Murillo Carraro) que quer posar nu para uma revista gay para salvar o acampamento de sua família e é impedido pelo tio comunista (Mario Cesar Camargo), é uma exceção na vida de Labaki. Apesar de transitar pelas duas funções, desde 1992 ele não comandava uma obra de sua autoria.
Vem preferindo, da platéia, descobrir os caminhos que suas histórias tomam com outros artistas. Mas, seja como autor ou como diretor, seu trabalho está longe de ser entretenimento. Ele quer incomodar.
Em geral, é melhor, porque posso descobrir coisas que não sabia que estavam lá. O que escrevo pode germinar várias vezes. E terá a cara dos artistas, do momento, do lugar onde está sendo feito e da platéia com quem vai dialogar.
Quando dirijo, perco a chance de descobrir as mensagens que escrevi involuntariamente, que vieram do inconsciente ou que surgem como reação da relação com outros artistas.
MSTesão” é uma exceção?
Sim. Resolvi dirigi-la porque tive uma idéia de encenação que me entusiasmou Trabalhei como se o texto não fosse meu. Nos ensaios, mexia nas falas e dizia aos atores: “Tudo bem, o autor não está aqui. Vamos priorizar a encenação.”
Sim, mas não falo de política partidária, mas de questões mais amplas. Qual a relação de corpo e imagem? Quando alguém usa a sua imagem está usando você? O que é mais evasivo: tocar no seu corpo ou tocar na sua imagem? Essas são indagações políticas mais instigantes do que saber se um deputado ou senador roubou ou deixou de roubar.
Com educação. Os teatros de Antunes Filho, José Celso Martinez Corrêa, Antônio Araújo são arte. Há dramas realistas que são entretenimento. Cada um tem seu valor. O problema é que tratamos os dois segmentos como um só. Arte necessita de um espectador ativo; entretenimento, de um passivo – o tipo que as nossas escolas formam hoje. As pessoas
não sabem ler, portanto, acham literatura chata. É o mesmo dilema do teatro. Na escola, não há acesso a texto teatral, as crianças não conhecem o código. Se o espectador vai a um teatro de qualidade, cria repertório e, naturalmente, o olhar necessário para entender aquilo.
É constrangedora, pois o artista está presente fisicamente. Mas, se for prazerosa, pode ser mais forte do que em todas as outras artes, porque põe dois corpos presentes no mesmo espaço numa era de computador, mensagem instantânea e TV a cabo. Nada substitui esse prazer. E não importa o assunto da peça. O tema é sempre sobre o que há em comum entre o ator e o espectador. Não há peça boa que não fale a você. Quando o teatro acontece, é uma experiência estética insubstituível.
A vontade de achar a forma certa de formular certas perguntas. Para compartilhar minhas dúvidas e minha angústia. O meu teatro é para o espectador sair de lá com mais dúvidas do que entrou. Tenho que despertar uma estranheza; quero estimular as pessoas a fazerem a mesma pergunta que coloco no palco, na vã esperança de que elas encontrem a resposta.
Fonte: Globo Teatro
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