terça-feira, 11 de março de 2008

Dia da Mulher

Lembro que em 2005 montamos no teatro do Sesc Venda Nova a peça “Cantata Mulher”. Este espetáculo-poema foi realizado em homenagem as mulheres dentro do Projeto Fórum Mulher. No palco as atrizes “Vânia Silvério”, “Rachel de Oliveira “ e “Vilma Silvério”. Direção e Iluminação de Paulo Alves Faria e a operação de luz de Clécio Lima. A seleção dos poemas foi feita pela Vânia e pelo diretor. Olha que time de poetisas: Ana Cristina César; Eugenia Corazon; Cecília Meirelles; Clarice Lispector ; Cora Coralina; Florbela Espanca e Marina Colasanti entre outras . Aqui uma pequema mostra destes belos poemas.


O dia amargo da mulher
Eugenia Corazon


Ainda que o prazer me seja negado

Que na África meu clitóris seja cortadoa sangue-frio

para extirpar definitivamente o mal que trago em mim.

Que em outros orientes me cubram de negro

e me concedam apenas o vão que deixa

o mínimo ar da vida entrar.

Ainda que meu corpo pecador

seja molestado desde a puberdade.

Que no norte do Brasil eu seja leiloada

para o prazer dos coronéis.

Que meu corpo seja exibido

como suculento presunto.

Que eu faça sexo pelos cantospara poder comer.

Que a baba do desejo dos homens

escorra do canto de suas bocaspara meus seios.

Que o passeio no meu corpo

seja o turismo do estrangeiro

que vem ao Brasil. A

inda que meu canto de tristeza

não seja ouvido.

Que meu homossexualismo

seja pecaminoso e perseguido.

Que a canção do meu amor

tenha que ser sussurrada para minha amada.

Que eu seja surrada até a morte por amá-la.

Ainda que meu corpo não seja meu.

Que me mandem ter filhos

que não quero ter.

Que me neguem o aborto

e me mantenham a bordo

dessa nau de loucos.

Ainda que me concedamo status de consumidora.

Que me paguem menos que aos homens.

Que eu dê minhas forças ao marido

explorado quando ele volta ao lar.

Que meu marido mui generosamenteme transmita a Aids.

Ainda que minha revolta seja loucura.

Que minha loucura seja feitiçaria.

Que a fogueira esteja sempre pronta

para curar minha tensão pré-menstrual.

Ainda que minha cordialidadeseja tomada por submissão.

Que meus direitossejam tidos como atrevimento.

Que eu seja a mais negra.Que eu seja a mais pobre.

Ainda assim eu resisto.

Eu sorrio.

E meu sorrisoé o mais forte e radiante

brilho desse pequeno universo.

Lua Adversa

Cecília Meirelles

Tenho fases, como a lua

Fases de andar escondida,fases de vir para a rua...

Perdição da minha vida!

Perdição da vida minha!

Tenho fases de ser tua,

tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,

no secreto calendário

que um astrólogo arbitrário

inventou para meu uso.

E roda a melancolia

seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém

(tenho fases, como a lua...)

No dia de alguém ser meu

não é dia de eu ser sua...

E, quando chega esse dia,

o outro desapareceu...

Sexta-feira à noite

Marina Colasanti



Sexta-feira à noite

os homens acariciam o clitóris das esposas

com dedos molhados de saliva.

O mesmo gesto com que todos os dias

contam dinheiro

papéis documentos

e folheiam nas revistas a vida dos seus ídolos.

Sexta-feira à noite

os homens penetram suas esposas com tédio e pênis.

O mesmo tédio com que todos os dias

enfiam o carro na garagem

o dedo no nariz

e metem a mão no bolso para coçar o saco.

Sexta-feira à noite

os homens ressonam de borco

enquanto as mulheres no escuro encaram seu destino

e sonham com o príncipe encantado.





Só hoje estou participando deste blogger Então um pouco atrasado um Feliz Dia das Mulher para todas as mulheres do mundo.



Paulo Alves Faria

Um comentário:

Vânia Silvério disse...

Boa Lembrança. Essa foi uma importante apresentação.Lembro-me da polemica que tais versos descritos causaram. Mais uma vez a arte chocou com a hipocrisia e falso moralismo das pessoas.