Lembro que em 2005 montamos no teatro do Sesc Venda Nova a peça “Cantata Mulher”. Este espetáculo-poema foi realizado em homenagem as mulheres dentro do Projeto Fórum Mulher. No palco as atrizes “Vânia Silvério”, “Rachel de Oliveira “ e “Vilma Silvério”. Direção e Iluminação de Paulo Alves Faria e a operação de luz de Clécio Lima. A seleção dos poemas foi feita pela Vânia e pelo diretor. Olha que time de poetisas: Ana Cristina César; Eugenia Corazon; Cecília Meirelles; Clarice Lispector ; Cora Coralina; Florbela Espanca e Marina Colasanti entre outras . Aqui uma pequema mostra destes belos poemas.
O dia amargo da mulher
Eugenia Corazon
Ainda que o prazer me seja negado
Que na África meu clitóris seja cortadoa sangue-frio
para extirpar definitivamente o mal que trago em mim.
Que em outros orientes me cubram de negro
e me concedam apenas o vão que deixa
o mínimo ar da vida entrar.
Ainda que meu corpo pecador
seja molestado desde a puberdade.
Que no norte do Brasil eu seja leiloada
para o prazer dos coronéis.
Que meu corpo seja exibido
como suculento presunto.
Que eu faça sexo pelos cantospara poder comer.
Que a baba do desejo dos homens
escorra do canto de suas bocaspara meus seios.
Que o passeio no meu corpo
seja o turismo do estrangeiro
que vem ao Brasil. A
inda que meu canto de tristeza
não seja ouvido.
Que meu homossexualismo
seja pecaminoso e perseguido.
Que a canção do meu amor
tenha que ser sussurrada para minha amada.
Que eu seja surrada até a morte por amá-la.
Ainda que meu corpo não seja meu.
Que me mandem ter filhos
que não quero ter.
Que me neguem o aborto
e me mantenham a bordo
dessa nau de loucos.
Ainda que me concedamo status de consumidora.
Que me paguem menos que aos homens.
Que eu dê minhas forças ao marido
explorado quando ele volta ao lar.
Que meu marido mui generosamenteme transmita a Aids.
Ainda que minha revolta seja loucura.
Que minha loucura seja feitiçaria.
Que a fogueira esteja sempre pronta
para curar minha tensão pré-menstrual.
Ainda que minha cordialidadeseja tomada por submissão.
Que meus direitossejam tidos como atrevimento.
Que eu seja a mais negra.Que eu seja a mais pobre.
Ainda assim eu resisto.
Eu sorrio.
E meu sorrisoé o mais forte e radiante
brilho desse pequeno universo.
Lua Adversa
Cecília Meirelles
Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...
Sexta-feira à noite
Marina Colasanti
Sexta-feira à noite
os homens acariciam o clitóris das esposas
com dedos molhados de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
contam dinheiro
papéis documentos
e folheiam nas revistas a vida dos seus ídolos.
Sexta-feira à noite
os homens penetram suas esposas com tédio e pênis.
O mesmo tédio com que todos os dias
enfiam o carro na garagem
o dedo no nariz
e metem a mão no bolso para coçar o saco.
Sexta-feira à noite
os homens ressonam de borco
enquanto as mulheres no escuro encaram seu destino
e sonham com o príncipe encantado.
Só hoje estou participando deste blogger Então um pouco atrasado um Feliz Dia das Mulher para todas as mulheres do mundo.
Paulo Alves Faria
terça-feira, 11 de março de 2008
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Um comentário:
Boa Lembrança. Essa foi uma importante apresentação.Lembro-me da polemica que tais versos descritos causaram. Mais uma vez a arte chocou com a hipocrisia e falso moralismo das pessoas.
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